Eu tenho muito que escrever.E as minhas mãos sedentas para sangrarem o azul da tinta,
irão registrar aflitas esses sentimentos meus.
O poeta escreve para que cada palavra sinta,
que aos versos, ele jamais dirá adeus.
A noite chegou sem que eu percebesse. Conversamos sobre tantas coisas, discordamos e rimos de muitas outras. Tínhamos muito em comum, e ao mesmo tempo, nada parecia igual, mas a atração era mútua. Contou-me sobre o trabalho, já que isso era algo comum entre nós. A hora passou como se não existissem relógios, compromissos ou qualquer outra coisa que poderia nos prender. Falamos sobre infância, brincadeiras, escola, família, livros, discos antigos, viagens, sonhos, segredos, amores, mentiras e solidão... Falamos em pouco tempo de todo um passado vivo, um presente solitário e um futuro incerto. Falei das flores que gosto, dos dias que choro; das perdas irreparáveis; dos erros cometidos e das escolhas erradas.
Parte III
Parte I
Neguei a ti quando perguntastes a mim se ainda te amo. Vi apenas teu sorriso faceiro dizendo sem palavras que isso era uma mentira descabida. Fugi do alcance dos teus olhos para que eles não mais me fizessem prisioneira, mesmo assim, não tive saída. Eu não sei negar-te por vezes seguida. Eu não sei mais tentar esquecer ou matar em mim o que ainda persiste. Alguém sabe a cura quando o amor ainda existe? Entrego-me a melodia de tua voz e o encanto das tuas palavras dizendo-me o quanto ainda me quer. 





No caminho, entre lágrimas, apressava meu passo para que tu não me alcançasses. Sigo pela calçada, atordoada e segurando ainda nas mãos o botão de rosa que tu me destes. Eu devia afastar-me, mas não conseguia pensar em mais nada. Meus pés seguiam, mas meus pensamentos me continham naquelas tuas palavras... Tuas derradeiras palavras, pedindo pra que eu ficasse junto a ti, apenas mais uma noite. Não pude atendê-lo, dei de costas e soltei minha mão das tuas, segui até a porta, parei diante dela, apertei os olhos para que as lágrimas se desprendessem e rolassem pela minha face.
Eu quero oferecer a mim um refúgio. Quero deixar de lado toda a possibilidade de não merecimento. Quero me abraçar e sentir meu coração. Eu preciso sentir meu coração, saber como ele ritma. Eu preciso me enxergar. Eu preciso reforçar meus apelos, sentar-me à beira de uma estrada abandonada por onde ninguém passa, e passar por mim várias vezes. Preciso conversar comigo pra saber como sou. Eu preciso de mim. Preciso aprender uma prece, um rito que seja. Preciso de qualquer coisa que me leve junto ao meu “eu” fugitivo.

Avanço o escuro e crio minha própria luz. Vejo todo esse igual rotineiro de maneira diferente. Guardo um espaço recriado em meio aos desenganos do passado. Busco uma alegria solta em sorrisos mágicos fulgurados por estrelas maiores. Saio de mim como se existissem outros caminhos, mesmo perdendo-me no meio da estrada. Cansei do pesar das horas frias e dos apelos esquecidos entre quatro paredes. Paredes brancas e sempre iguais, como minhas falhas repetidas. Sigo minhas escolhas, e o medo de antes, não mais acorrenta meus tornozelos. Sou tão entregue ao que sinto que já me vejo no egoísmo absoluto desses sentimentos que jamais se explicam. Deixarei que as palavras me comovam e o que os ventos guiem meus descompassados passos estreitos. Não medirei meus dias nas expectativas tolas dos sentimentos falsos, nem despertarei ilusões póstumas. Serei a minha loucura de sempre, não mudarei meus acasos em favor de outros que dizem ter a cura para minhas insanidades. Sigo ilesa, mesmo que me machuquem. Acendo minha vela e guio-me sozinha.

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