quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Grãos de café, folhas de chá e poesia

Parte III

Sábado. Hoje não difere muito dos outros dias, apenas não tenho expediente. Fico em casa, leio, arrumo gavetas... A noite é sempre igual, a não ser que caia uma chuva boa, ou eu assista algum filme antigo. Eu poderia pensar em coisas diferentes. Sair e me distrair como a maioria dos mortais, mas imortalizei-me no meu canto. Fechei as portas do castelo e amarrei-me num laço de fita. Sei que é mais um dia de solidão desmedida, mesmo assim, não consigo deixar de imaginar que ele possa bater à porta a qualquer momento, trazendo-me a xícara. Desde algum tempo o tenho reparado. Não sei se ele chega a notar, mas faço isso sempre discretamente. As condições favoráveis são muitas. Moramos no mesmo prédio; trabalhamos no mesmo escritório e freqüentamos o mesmo restaurante. Sempre o vejo. Observo os detalhes que a mim são tão importantes. O modo como ele sorri, o espaço entre os dedos quando está segurando algo; a pele branca, o contorno dos olhos levemente maltratado por olheiras e os olhos donos de uma cor encantadora. Não consigo deixar de pensar. Perco-me agora em meio a essas divagações.

Ouço a porta. E se for ele? Preciso olhar-me no espelho e não posso demonstrar ansiedade. É complicado ser diferente do que sou, mas devo tentar nesse momento. Vou até a porta aparentando calma: - Oi, vizinha! Como prometido, estou aqui. Vim devolver-te a xícara, que já não é a mesma, mas a intenção é a melhor possível. Ele estende as mãos e entrega-me uma caixa decorada de um papel florido em tons pastéis. Abro e logo me surpreendo: - Que linda! Obrigada pela gentileza. Por favor, entre. Ele pede licença, diz que não quer incomodar, e entra. Digo que irei preparar um chá, para que eu possa fazer uso da xícara nova. Ele sorri quando vê as rosas dispostas sobre a mesa: - Gostaste das rosas? Respondo olhando-o firmemente nos olhos: São minhas prediletas. Ele sorri de lado, como um menino tímido e enquanto se ajeita para sentar, pede-me para ver alguns títulos que estão na estante: - Tu tens bons poetas aqui. Eu sou amante da poesia. Posso tomar um desses, enquanto preparas o chá? Apenas faço sinal de afirmação com a cabeça, enquanto procuro minha caixa de folhas de chá.

Fico observando-o de longe, folheando meu livro predileto. Arrumo as xícaras e o convido para vir sentar-se a mesa: - Venha, está pronto. Traga o livro se quiser. No caminho, o ouço declamando um o trecho de um poema: “Num ímpeto difuso de quebranto, tudo encetei e nada possui. Hoje só resta-me o encanto, das coisas que beijei e não vivi”. Logo identifico os versos: - “Quase” – Mario Sá Carneiro. – Tu és boa nisso! Bem, se Mario ao escrever esses versos, diz que beijou e não viveu, digo-te agora, do teu chá irei beber para de ti, um pouco viver. Não pude deixar de sorrir, eu tinha agora, no mesmo horário de sempre, alguém comigo, tomando do meu chá e fazendo-me versos...

Continua...

Grãos de café e folhas de chá

Parte II

Confesso que fiquei ansiosa a noite toda, pensando se a xícara seria devolvida no outro dia. Dormi feliz e esperançosa, pois de algum modo teria uma desculpa de ir ao apartamento ao lado, nem que se fosse para buscar minha estimada xícara de volta. Segui minha rotina de todo dia, mas algo me dizia que o fim de tarde seria diferente. Sento no sofá no mesmo ritual de sempre. O chá, em pequenos goles, aquece meus pensamentos. Fico a imaginar se ele realmente viria. Escuto baterem a porta, meu coração acelera e logo tento recompor a minha calma.

Caminho em direção a porta não conseguindo esconder o sorrir solto. Quando abro: - Flores para a senhorita. Um entregador simpático entrega-me um lindo buquê de rosas vermelhas, acompanhadas de um cartão singelo, escrito com caligrafia bem feita:

"Essas rosas servirão de desculpas até que eu compre uma nova xícara, pois a tua, num descuido de homem desajeitado, quebrou-se. Amanhã entrego-lhe outra, tentarei ter o mesmo bom gosto ao escolher este mimo".

Me perdoe,
Vizinho ao lado.

Bem, agora eu tenho duas desculpas. Pensei logo em ir até lá, e dizer a ele que não precisava se incomodar, xícaras são xícaras, mas algo conspirava a nosso favor. Olho as rosas, pego minha xícara de chá e releio o cartão tão delicado, envolvido em um perfume clássico. Tudo agora é um misto de aromas... Meu coração marcado por batidas largas, aliadas a suspiros profundos, retoma minha crença em algo novo, vivo e verdadeiro. Sei que ele não me olha a toa, quando inesperadamente cruzamos os corredores do prédio. Posso ver naqueles olhos um desejo escondido. O charme, a delicadeza das palavras, leva-me a delongados pensamentos de como seria estar junto a alguém como ele, dividir um assunto, olhar nos olhos, sorrir, ser compreendida e quem sabe, até tomar gosto por café.

Continua...

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Grãos de café e folhas de chá

Parte I

O aroma exalado na hora de sempre, faz-me imaginar cada detalhe do morador ao lado que rotineiramente segue o rito de sentar-se à mesa, para tomar café sozinho. Por certo, meus pensamentos chegavam desse modo, porque minha ação daquela hora era sempre a mesma. Às 17h15min, eu já havia fechado a porta e estava na cozinha olhando as bolhas saltarem aflitas na chaleira, a espera de serem beijadas pelas folhas de chá organizadas em minha caixa de madeira rústica. Minha solidão jogava-me ao sofá onde de olhos contraídos e xícara na mão eu deixo-me envolver em devaneios: - Eu poderia dividir meu chá e uma conversa boa.

Pensei diversas vezes em bater na porta ao lado e fazer tal convite. Poderia ser atrevimento, mas, olhar de novo aqueles olhos seria a mim um agrado. Aquieto-me e o chá desce quente enquanto o aroma invade minhas narinas deixando-me ainda mais desejosa de uma companhia agradável. Sorrio, apenas sorrio. Nada mais devo fazer, pois se eu render-me aos meus insensatos pensamentos, usarei à velha desculpa de pedir uma xícara de açúcar. Comprei esse ingrediente justamente pra isso! Em meio aos risos, ouço baterem a porta, isso é uma surpresa a mim nesse horário: - Oi vizinha, podes me empresar uma xícara com açúcar? Não pude acreditar no que via e também não pude deixar de sentir-me atraída por aqueles olhos incríveis. -Tenho sim, já lhe trago. Viro as costas e nem percebo a falta de compostura de minha parte, não fiz convite para entrar, isso me faz franzir a testa e pensar no quando sou descuidada.

Ajeito a xícara com o açúcar e trago junto um sorriso que é para desfazer o mal feito:- Desculpe-me, nem o convidei para entrar... De repente, sou interrompida com um quedar de cabeça em sinal de apreço: - Não se preocupe, quando eu vier devolver a xícara, aceito o convite, obrigado. Eu não digo mais nada, apenas encanto-me quando ele gentilmente beija a minha mão e despede-se. Fecho a porta, sento-me novamente e digo pra mim mesma: - Ele levou uma das minhas xícaras prediletas e eu nem uso açúcar. Sorrio. O chá está já frio, acrescento mais algumas folhas e água quente e retomo meus pensamentos. Já não há como fugir deles nesse momento.

Continua...

domingo, 25 de outubro de 2009

Sem compromisso


Por que me falho?
Por traço um caminho, e escolho um atalho?
Faço falta a mim quando caminho sozinha.
Sinto uma solidão pequena, perdida em meio a casa.
Nesses momentos, sou pássaro de uma só asa.
Pássaro de uma só asa não voa.
Coração que ama sozinho destoa.
Poesia atada se solta.
Caminho escolhido, nem sempre tem volta.
Sim, eu oscilo nos versos, sempre faço isso,
porque sou escrava dessa minha poesia sem compromisso.


sábado, 24 de outubro de 2009

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Lucidez perdida

Neguei a ti quando perguntastes a mim se ainda te amo. Vi apenas teu sorriso faceiro dizendo sem palavras que isso era uma mentira descabida. Fugi do alcance dos teus olhos para que eles não mais me fizessem prisioneira, mesmo assim, não tive saída. Eu não sei negar-te por vezes seguida. Eu não sei mais tentar esquecer ou matar em mim o que ainda persiste. Alguém sabe a cura quando o amor ainda existe? Entrego-me a melodia de tua voz e o encanto das tuas palavras dizendo-me o quanto ainda me quer.
Tu sabes o quanto te amo, e o quanto sofre o coração de uma mulher. Vou dizer-te, não sei passar meus dias sem que seja somente para viver desse amor. E quando, de repente, tu chegas de mansinho, olha-me nos olhos e imploras um beijo, eu não resisto, e buscar por razão, já nem mais insisto. Entrego-me ao teu doce carinho. Desejo-te tanto, que minha lucidez já perdeu-se ao longo do caminho.

Jardim secreto


Carrego em mim um jardim secreto.
Flores raras de folhas novas.
Sou dona das telôneas, zíbulias, feivíteas...

Faço a poesia de qualquer hora e amarro todas as flores num verso com laço.
Eu tenho um jardim secreto de amores.
Cultivo o que sou, do jeito que sou e da maneira que faço.
Fiz-me flor agora. Faço chuva e sol da minha janela... Faço-me tão eu.
Egoísmo de flor achar que pode ter um jardim só pra ela.
Flores podem, eu posso.
E por momentos assim,
eu invento o meu secreto jardim.

Vida

Vida
Há muito o que ser escrito...


A quem siga vivendo de alegria ou agonia... Eu sigo vivendo da minha alegre e agonizante poesia.
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